MEMÓRIA & SAUDADE
Juliana Costa

Juliana Costa

20 de janeiro de 2026 · 4 min de leitura

Minha Avó Partiu Antes de Eu Dizer Tudo Que Queria... Então Transformei em Música

Tem coisas que a gente adia a vida inteira achando que vai ter tempo. Até o tempo acabar.

Minha avó Dona Lourdes era o tipo de mulher que fazia a casa inteira cheirar a bolo de laranja no sábado de manhã.

Ela tinha uma Bíblia tão gasta que as páginas de Salmos já não tinham mais capa. E uma cadeira de balanço na varanda onde ela sentava toda tarde pra “conversar com Deus”, como ela dizia.

Quando eu era pequena, eu sentava no colo dela naquela cadeira e ela cantava hinos pra mim. Não lembro as letras todas, mas lembro da voz dela. Rouca, suave, cheia de paz.

Ela me ensinou a orar. Me ensinou que Deus ouve mesmo quando a gente não sabe o que dizer. Me ensinou que fé não é ausência de medo — é escolher confiar mesmo com medo.

Ela era minha melhor amiga. E eu nunca disse isso pra ela.

A gente sempre acha que vai ter mais um sábado de bolo de laranja. Mais uma tarde na varanda. Mais uma oração juntas. Até que não tem mais.

Minha avó partiu num dia de terça-feira. Quietinha, como ela sempre foi. Dormiu e não acordou.

No velório, eu queria falar. Preparei um texto. Mas quando cheguei na frente, as palavras ficaram presas na garganta. Não saiu nada.

Eu voltei pro meu lugar em silêncio. Derrotada.

Nas semanas seguintes, a saudade veio como uma onda. Eu encontrava coisas dela pela casa da minha mãe — um lenço, uma receita escrita à mão, aquela Bíblia gasta. E cada vez doía mais.

Eu não queria esquecer. Mas também não conseguia transformar o que eu sentia em palavras.

Até que uma prima me mandou um link. “Já ouviu falar da Música de Louvor? Eles criam músicas cristãs personalizadas. Talvez seja uma forma de homenagear a vó.”

Eu abri o site sem muita expectativa. Mas quando vi que podia contar a história da minha avó — as memórias, as qualidades, tudo que ela significava pra mim — algo mudou dentro de mim.

Eu finalmente ia conseguir dizer o que não disse no velório.

Escrevi sobre o bolo de laranja. Sobre a cadeira de balanço. Sobre a voz rouca cantando hinos. Sobre a fé que ela plantou em mim.

Quando a música chegou, eu não estava preparada.

Nos primeiros acordes, eu já estava chorando. Mas não era aquele choro de dor. Era um choro de... conforto.

Era como se minha avó estivesse ali. Como se ela pudesse ouvir tudo que eu nunca disse.

Mandei pra toda a família. Minha mãe escutou e ligou pra mim soluçando. Meus tios ficaram em silêncio. Minha prima — aquela que me mandou o link — disse que foi a coisa mais bonita que já ouviu na vida.

Nós tocamos a música no culto de 1 ano da partida da minha avó. A igreja inteira se emocionou.

E sabe o mais lindo? Toda vez que eu escuto a música, eu não sinto mais a dor da ausência. Eu sinto a presença. A presença dela na minha vida. E a presença de Deus cuidando dela — e de mim.

Se você perdeu alguém que amava e as palavras ficaram presas... essa pode ser a sua forma de finalmente dizer tudo.

Não precisa ser perfeito. Não precisa ser eloquente. Basta contar a história — e a música vai dizer o resto.

Uma homenagem que mantém viva a memória de quem partiu.

Juliana Costa

Com saudade e fé,

Juliana Costa

Neta da Dona Lourdes, pra sempre

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